terça-feira, 8 de novembro de 2011

Patti Smith, Wovoka e a Dança dos Espíritos


Patti Smith, nascida a 30 de dezembro de 1946, música, poeta e artista plástica, normalmente considerada a madrinha do punk nova-iorquino que rebentou em 1975, antes e diferentemente da jogada que o falecido Malcolm McClaren fez com os Sex Pistols no Reino Unido, é um dos nomes grandes da arte contemporânea do além-atlântico. Na música, a sua grande virtualidade poderá ser o facto de se tratar, talvez, da única mulher criadora de verdadeiro rock, despido de influências da pop omnipresente.
Tendo crescido numa família de Testemunhas de Jeová, aos 11 a 12 anos manifestava interesse no budismo tibetano, tendo-se tornado, mais tarde, agnóstica, como vemos no início da sua versão de Gloria, no álbum Horses, de 1975: "Jesus died for somebody's sins but not mine (...) my sins my own, they belong to me/You can say beware, but I don't care, the words are just rules and regulations to me".
Concluiu os estudos liceais em 1964 e foi trabalhar numa fábrica, experiência marcadamente negativa que viria a expressar no tema Piss Factory, do álbum Radio Ethiopia. Mais tarde, em 1967, saiu da universidade e mudou-se para Nova Iorque, passando seguidamente por Paris, cidade que a captou através das palavras do poeta Arthur Rimbaud, e regressando a Nova Iorque, onde viveu no famoso Chelsea Hotel, celebrizado nas palavras e na música de Leonard Cohen.
Após vários relacionamentos importantes, contraiu matrimónio com Fred "Sonic" Smith, ex-guitarrista dos MC5, tendo passado a maior parte dos anos oitenta a norte de Detroit com a família. Ao que consta, tocava ocasionalmente clarinete num bar local de jazz.
Fred Smith viria, entretanto, a falecer, vítima de um enfarte do miocárdio, dramaticamente seguido pelas mortes, pouco mais tarde, do seu irmão Todd e ainda do seu antigo parceiro na Patti Smith Band, Richard Sohl. Foi nesse clima coincidente com o décimo-quarto aniversário do seu filho, apoiada por Michael Stipe, dos REM, e por um velho amigo, o autor Allen Ginsberg, que regressou a Nova Iorque e retornou aos palcos.
Ativista a favor de causas como a ecologia, manifestante contra a guerra no Iraque, opositora da política de terra queimada praticada por Israel, erguendo a voz contra a prisão de Guantanamo e a ausência de democracia no Irão, Patti foi nomeada para a Ordre des Arts et des Lettres pelo ministério da Cultura francês, em 2005, e para o Rock'n'Roll Hall of Fame, em 2007, tendo também recebido um doutoramento honorário do Pratt Institute e o National Book Award pelo seu livro de memórias Just Kids, em 2010, e ainda, em 2011, o celebrado Polar Prize. Trabalha presentemente num romance policial, influência que lhe vem dos tempos de juventude, quando era fã de Sherlock Holmes e do autor Mickey Spillane.
Um dos seus temas mais emblemáticos, se bem que mais encantatório que rockeiro, é Ghost Dance, concebido a partir de um quase-mito da história dos Estados Unidos: o de Wovoka e da sua Ghost Dance (Dança dos Espíritos)...




O líder Paiute Wovoka (que significa lenhador) nasceu por volta de 1856 e veio a falecer a 20 de setembro de 1932. Ao que parece, o seu pai, Tavibo ou Numu-Taibo, era um chefe religioso e com prática como  homem-medicina, prática essa que terá passado ao filho.
Após o falecimento do pai, em 1870, Wovoka foi adotado e criado por um casal de fazendeiros brancos do Nevada, David e Mary Wilson, com os quais o jovem, então conhecido pelo nome de Jack Wilson, aprendeu os fundamentos do cristianismo.
Entretanto, a sua compulsão mística não deixava de se manifestar, sendo que se dizia conseguir feitos como a levitação, o controlo do tempo atmosférico, a invencibilidade face às balas, o acender do seu cachimbo no próprio sol, a aparição súbita de pedaços de gelo nas mãos e ainda que, certa vez, terá feito com que um bloco de gelo caísse do céu em pleno verão, colocando fim à seca que assolava o território.
Durante o eclipse solar de 1 de janeiro de 1889, afirmou ter tido uma visão profética da desaparição de todos os colonos brancos dos territórios ocupados, acompanhada pela ascensão à terra de todos os antepassados dos índios Paiutes. Para que tal ocorresse, as nações índias deveriam levar a cabo uma dança mágica, a Ghost Dance, durante cinco dias seguidos.
A mensagem transmitida por Wovoka foi sempre de não-violência. Mas não a de todos os seus colaboradores. Daí que não deixe de ser interessante que tenha estado indiretamente na origem do massacre do exército do general Custer em Wounded Knee face aos Sioux, pelo facto de as tropas, tendo ouvido falar na Dança, desconhecendo o quanto abarcava, terem assumido uma posição preponderantemente cautelosa e defensiva.
Em todo o caso, a Ghost Dance não funcionou. Wovoka viria a falecer em Yersington, encontrando-se sepultado no cemitério Paiute de Schurz, no Nevada. Para nós, além da história, fica a versão da Ghost Dance no olhar poético de Patti Smith...


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